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Módulo 4 |
TEXTOS NARRATIVOS / DESCRITIVOS I
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Conteúdos Tipos de texto: - Contos / Novelas de autores do séc. XX (a seleccionar por cada professor) - Reconto - Síntese Concurso de leitura em voz alta
Funcionamento da Língua: - Língua, comunidade linguística, variação e mudança - Referência dêictica ( deixis pessoal, temporal e espacial; anáfora e co-referência) - Reprodução do discurso no discurso (verbos introdutores de relato de discurso) - Texto (continuidade; progressão; coesão e coerência) - Protótipos textuais - Morfologia e classes de palavras - Sintaxe: estruturas das combinações livres de palavras; funções sintácticas; ordem de palavras; figuras de sintaxe Relações entre palavras – relações fonéticas e gráficas (homonímia, homofonia, homografia, paronímia) |
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Para mim não existe passado nem futuro em arte. Se uma obra de arte não pode viver sempre no presente, nem sequer deve prestar-se-lhe atenção. A arte dos Gregos, dos Egípcios, dos grandes pintores que viveram noutros tempos, não é uma arte passada, talvez até esteja mais viva hoje do que nunca.
Pablo Picasso (1923)
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Actividade 1
1. Começa por ler o conto de autor "Palavra Mágica" de Vergílio Ferreira.
2. Lê agora o conto A Aia de Eça de Queirós.
Outros contos
O cágado
Almada Negreiros
Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho
pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal
que parecia não vir a propósito — um cágado.
O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo,
agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo
era, na verdade, o tal cágado da zoologia.
O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades
para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a
família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e
parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que
a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás.
0uando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira
vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.
O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e
depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro
dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e
nada; a seguir até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido
experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe
até ao comprimento do braço e nada.
Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas
haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava
ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo,
exactamente como uma vara perdida.
Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de fato submetida a nova
orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do
tanque estava um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e,
cheio até mais não, despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde
só já ele sabia que não bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito
baldes e que já faltavam só dois para cem e que a água não havia meio de vir ao
de cima, o homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a pensar em todas as
espécies de buracos que possa haver.
— E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o
homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar
assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade.
O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do
cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se
involuntariamente para as horas de almoçar.
— Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não;
agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que
está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!
Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou
na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a
terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha
os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos
antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com
robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma
vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra
rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta
a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se
perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali
por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por
outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um
dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte — a vontade.
Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da
inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por
um cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.
A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade
foi surpreendido por dolorosa dúvida — já não tinha nem a certeza se era a
quinquagésima milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais
valia perder uma pazada.
Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo
fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito
senhor da sua vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más
impressões. De fato, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil,
também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.
Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem
constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no
esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam
feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros
arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.
Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes
camadas de areia e de lama; todavia, estas facilidades ficavam bem subtraídas
quando acontecia ser a altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há
no subsolo. Sem incitamento nem estímulo possível por aquelas paragens, é
absolutamente indispensável recordar a decisão com que o homem muito senhor da
sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador rural para justificarmos a
intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria descoberta do
centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas
entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era
muito senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efectivamente interminável.
Por mais que se avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se
explica ser tão rara a presença de cágados à superfície devido à extensão dos
corredores desde a porta da rua até aos aposentos propriamente ditos.
Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua
vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último,
pelo luto carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava
dormir todas as noites.
Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de
fato, mais continuação daquele buraco, parava exactamente ali, sem apoteose, sem
comemoração, sem vitória, exactamente como um simples buraco de estrada onde se
vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada.
Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões,
novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo,
estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá.
Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e
almofada fofa, tão longe! Maldita pá! 0 cágado! E deu com a pá com força no
fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele
supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se
tinha esquecido há muito - a luz do sol. A primeira sensação foi de alegria, mas
durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade furado a
Terra de lado a lado?
Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um
país estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras
proporções diferentes das que ele tinha na memória. 0 sol também não era o
mesmo, não era amarelo, era de cobre cheio de azebre e fazia barulho nos
reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando
quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes
daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as
coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar...
Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no
chão e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe o sangue à cabeça. Então,
começou a ver que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se
falava com a boca, falava-se com o nariz.
Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de
dormir. Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o
abrira com uma pá de ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao
contrário. Andou, andou, andou; subiu, subiu, subiu...
Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia
antigamente — o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucochinhos, às
pazadas de terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior
monte da Europa.
Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a
estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo
panorama. O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.
O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito
duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas
para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade,
onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores
rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à
Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado.
Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes
dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter
estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.
O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para
descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas.
Faltavam poucas, algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até
ao fim. Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco,
portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão
estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era — era
o cágado.
Pequena
biografia de:
José Sobral de Almada Negreiros (1893-1970) nasceu em São Tomé e
Príncipe, Portugal. Em 1905 já redigia e ilustrava jornais manuscritos (“A
República” e “O Mundo”). Publica seu primeiro desenho em “A Sátira” e faz sua
primeira exposição individual de 90 desenhos, em 1913. Escreve, em 1915, o
“Manifesto Anti-Dantas e por extenso” e é publicado o primeiro número da revista
“Orpheu”. Retorna de sua estada em Paris, em 1920. No ano de 1925 pinta dois
painéis para “A Brasileira”, um café do Chiado, em Lisboa. De 1927 a 1932 mora
em Madrid. Em 1938, conclui os vitrais da Igreja de Nª Sra. de Fátima. Pinta o
famoso retrato de Fernando Pessoa (“Lendo Orpheu”), para o restaurante “Irmãos
Unidos”, em 1954. Em 1951, o SNI lhe confere o “Prêmio Nacional das Artes”. Em
1966 é eleito membro honorário da Academia Nacional de Belas Artes. No ano
seguinte recebe o Grande Oficialato da Ordem de Santiago Espada. No ano de 1970,
o pintor e escritor morre em Lisboa, no mesmo quarto em que morrera o poeta
Fernando Pessoa. Companheiro de geração de Pessoa, é considerado um dos maiores
pintores lusos, além de escritor e agitador cultural. Sua importância na cultura
portuguesa é sentida mesmo após sua morte. Deixou contos espalhados por revistas
de vanguarda de curta duração.
Obras:
O Moinho (1912 – teatro)
Manifesto Anti-Dantas e por extenso (1915)
A Engomadeira (1917 – novela)
A Cena do Ódio
(poema publicado na revista Portugal Futurista em 1917)
A Invenção do Dia Claro (1921)
Os Outros (1923 – teatro)
El uno, trajedia de la unidad (1927 – teatro)
S. O. S. (1929 – teatro)
Nome de Guerra (romance, 1938)
Antes de Começar (teatro)
Deseja-se Mulher (1959 – teatro)
Vai a esta
página e resolve a ficha formativa sobre o conto.
A BELA E A COBRA
Era uma vez um rei que tinha três filhas, uma das quais era muito formosa e ao
mesmo tempo dotada de boas qualidades. Chamava-se Bela. O rei tinha sido muito
rico, mas, por causa de um naufrágio, ficou completamente pobre.
Um dia foi fazer uma viagem. Antes, porém, perguntou às filhas o que queriam que
ele lhes trouxesse.
– Eu – disse a mais velha – quero um vestido e um chapéu de seda.
– Eu – disse a do meio – quero um guarda-sol de cetim.
– E tu, que queres? – perguntou ele à mais nova.
– Uma rosa tão linda como eu – respondeu ela.
– Pois sim – disse ele.
E partiu.
Passado algum tempo, trouxe as prendas de suas filhas. E disse à mais nova:
– Pega lá esta linda rosa. Bem cara me ficou ela!
Bela ficou muito surpreendida e perguntou ao pai porque é que lhe tinha dito
aquilo. Ele, a princípio, não lho queria dizer, mas ela tantas instâncias fez
que ele lhe respondeu que no jardim onde tinha colhido aquela rosa encontrara
uma cobra, que lhe perguntou para quem ela era. Respondeu-lhe que era para a sua
filha mais nova e ela disse que lha havia de levar, senão que era morto.
Consolou-o a menina:
– Meu pai, não tenha pena, que eu vou.
Assim foi. Logo que ela entrou naquele palácio, ficou admirada de ver tudo tão
asseado, mas ia com muito medo. O pai esteve lá um pouco de tempo e depois
foi-se embora. Bela, quando ficou só, dirigiu-se a uma sala e viu a cobra. Ia
deitar-se quando começaram a ajudá-la a despir. Estava ela na cama quando sentiu
uma coisa fria. Deu um grito e disse-lhe uma voz:
– Não tenhas medo.
Em seguida foi ver o que era e apareceu-lhe a cobra. A menina, a princípio,
assustou-se, mas depois começou a afagá-la. Ao outro dia de manhã apareceu-lhe a
mesa posta com o almoço. Ao jantar viu pôr a mesa, mas não lobrigou ninguém. À
noite foi-se deitar e encontrou a mesma cobra. Assim viveu durante muito tempo,
até que um dia foi visitar o pai. Mas quando ia a sair ouviu uma voz que lhe
disse:
– Não te demores acima de três dias, senão morrerás.
Lá seguiu o seu caminho, já esquecida do que a voz lhe tinha dito. E chegou a
casa do pai. Iam a passar os três dias quando se lembrou que tinha de voltar.
Despediu-se de toda a família e partiu a galope. Chegou já à noite e foi
deitar-se, como tinha de costume, mas já não sentiu o tal bichinho. Cheia de
tristeza, levantou-se pela manhã muito cedo, foi procurá-lo no jardim e qual não
foi a sua admiração ao vê-lo no fundo dum poço! Ela começou a afagá-lo,
chorando, e caiu-lhe uma lágrima no peito. Assim que a lágrima lhe tocou, a
cobra transformou-se num príncipe, que ao mesmo tempo lhe disse:
– Só tu, minha donzela, me podias salvar! Estou aqui há uns poucos de anos e,
senão chorasses sobre o meu peito, ainda aqui estaria cem anos mais!
O príncipe gostou tanto dela que casaram e viveram durante muitos anos.
Contos Tradicionais Portugueses, Publicações Europa-América
Havia um homem que tinha tantos
filhos, tantos que não havia ninguém na freguesia que não fosse compadre dele e
vai a mulher teve mais um filho. Que havia do homem fazer? Foi por esses
caminhos fora a ver se encontrava alguém que convidasse para compadre.
Encontrou um pobrezito e perguntou-lhe se queria ser compadre dele.
-Quero; mas tu sabes quem eu sou?
- Eu sei lá; o que eu quero é alguém para padrinho do meu filho. Pois, olha, eu cá sou Deus.
- Já me não serves; porque tu dás a riqueza a uns e a pobreza a outros.
Foi mais adiante; e encontrou uma pobre e perguntou-lhe se queria ser comadre dele.
- Quero; mas sabes tu quem eu sou?
- Não sei.
- Pois, olha, eu cá sou a Morte.
- És tu que me serves, porque tratas a todos por igual.
Fez-se o baptizado e depois disse a Morte ao homem:
- Já que tu me escolheste para comadre, quero-te fazer rico. Tu fazes de médico e vais por essas terras curar doentes; tu entras e se vires que eu estou à cabeceira é sinal que o doente não escapa e escusas de lhe dar remédio; mas se estiver aos pés é porque escapa; mas livra-te de querer curar aqueles a que eu estiver à cabeceira, porque te dou cabo da pele.
Assim foi. O homem ia às casas e se via a comadre à cabeceira dos doentes abanava as orelhas; mas se ela estava aos pés receitava o que lhe parecia. Vejam lá se ele não havia de ganhar fama e patacaria, que era uma coisa por maior! Mas vai uma vez foi a casa dum doente muito rico e a Morte estava à cabeceira; abanou as orelhas; disseram-lhe que lhe davam tantos contos de réis se o livrasse da Morte e ele disse:
- Deixa estar que eu te arranjo, e pega no doente e muda-o com a cabeça para onde estavam os pés e ele escapa.
Quando ia para casa sai-lhe a comadre ao caminho:
-Venho buscar-te por aquela traição que me fizeste.
- Pois, então, deixa-me rezar um padre-nosso antes de morrer.
- Pois reza.
Mas ele rezar; qual rezou! Não rezou nada e a Morte para não faltar à palavra foi-se sem ele.
Um dia o homem encontra a comadre que estava por morta num caminho; e ele lembrou-se do bem que ela lhe tinha feito e disse:
- Minha rica comadrinha, que estás aqui morta; deixa-me rezar-te um padre-nosso por tua alma.
Depois de acabar, a Morte levantou-se e disse:
- Pois já que rezaste o padre-nosso, vem comigo.
O homem era esperto; mas a Morte ainda era mais; pois não era?
Actividade 2
1. Resume um destes contos.
2. Indica que moralidade encerra
cada um dos contos.
2. Recorda, agora, o processo de formação das palavras e resolve a
ficha formativa desta página.
Actividade 3
Teste de aferição de conhecimentos
